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ENTRE UMAS E OUTRAS - ANÁLISE DO QUADRINHO


      Confesso que quando esse título chegou na livraria onde eu trabalho atualmente não foi um título que me chamou muito a atenção. Eu, literalmente dei uma folheada, e larguei de lado. Porém, pela procura que ele esse título começou a ter pelos clientes, comecei a uma curiosidade sobre o conteúdo de Entre umas e outras da Julia Wertz. E essa curiosidade durou até que a própria editora Nemo (Autêntica) me mandou um exemplar deste título de cortesia, e, foi ai que vi o que estava perdendo por não ter dado atenção a esse título.
     Se você é aquele desenhista/blogger/youtuber ou qualquer coisa do gênero que não vive naquele tão sonhado lugar no mainstream (tipo eu) ou que não é nenhuma das alternativas anteriores, mas, que acabou de sair das asas dos pais para ir morar sozinho, ou até mesmo ambos, simplesmente não tem como você não se identificar com a história de Julia Wertz sobre seus problemas em se tornar adulta, ir morar longe dos pais e ao mesmo tempo conseguir aquele aclamado lugar ao sol como quadrinista e blogger enquanto trabalha em empregos que não gosta para pagar suas contas e comprar seus quadrinhos . Tudo isso com uma boa dose de humor e muitas biritas.


      Entre umas e outras (Drinking at the movies) se passa entre os anos de 2007 e 2008 divido em estações do ano, onde cada estação do ano é um capítulo diferente da história. Nele vemos a autora Julia Wertz contando um pouco sobre como ela decidiu sair da casa dos pais em São Francisco aos 25 anos para ir morar sozinha em Nova York e tentar a vida como quadrinista profissional e conseguir publicar seu quadrinho chamado de "The fart party" (sim, festa do peido).
      Claro que conseguir chegar ao mainstream do mundo dos quadrinhos não é algo tão fácil assim, então, enquanto Julia não consegue alcançar seus objetivos, ela precisa trabalhar em empregos que não gosta como fazer entregas de bicicleta em lugares perigosos, em dias de chuva e até dias de neve até em alguns empregos que ela achava que seriam legais, mas na realidade foram um pesadelo para ela, como escritora e colaboradora freelancer de revistas, onde ela tinha que escrever matérias sobre em prazos extremamente apertados, e com um salário bem menor que ela ganharia em um emprego normal, fazendo ela se questionar se valia mesmo a pena ficar se matando em um emprego de freelancer quando ela poderia estar em um emprego normal ganhando mais, interagindo com pessoas e se divertindo nas horas vagas.
     O livro também fala de algumas situações que Julia Wertz passou ao conseguir a publicação do seu quadrinho, como ir a sessões de autógrafos onde não tinha ninguém, de esquecer que tinha uma reunião com seus editores e ir encher a cara no bar ao invés de ir na reunião com os editores e também um pouco sobre a frustração de conseguir uma publicação mas ainda sim não ser uma quadrinista conhecida, tudo de uma maneira muito engraçada e esquisita. Em suma, ele é uma auto-biografia em quadrinhos com muito humor.


        Além  de mostrar um pouco sobre os problemas de conseguir entrar no mainstream, entre umas e outras aborda mais para o lado de crescer, de deixar a segurança e a estabilidade da casa dos pais e cair no mundo para realizar seus sonhos, viver a vida do jeito que você quer, ter que lidar com responsabilidades (algo que Julia mostra ter muitos problemas durante o quadrinho) e problemas cotidianos comuns para muitas pessoas, como por exemplo ser assaltado, tentar parar de fumar, problemas com o irmão viciado em drogas, ficar trancado fora de casa porque perdeu a chave ou se trancou fora de casa, ser cantada na rua, encher a cara um dia antes de fazer algo importante, você acordar achando que o dia vai ser excelente e tudo nele dar errado, ter que mudar de casa diversas vezes por motivos que variam desde falta de dinheiro para conseguir manter pagando o aluguel e as contas até mudar para um lugar onde as pessoas não sejam chatas metidas, e, até mesmo frustrações e fracassos diários que todos passamos também é abordado de forma divertida e inusitada, fazendo com que seja fácil se identificar com Julia Wertz e seus problemas no decorrer das 185 páginas do quadrinhos.
  

       O estilo de desenho da Julia Wertz é igual os de tirinhas de jornais, e suas histórias também seguem esse mesmo estilo. Só que, ao invés de serem em tirinhas eles são em histórias de uma página inteira. O estilo de desenho simples, porém efetivo dela combina bastante com o estilo de humor da história.
       Uma coisa que eu gostei muito do quadrinho é ele ter sido feito por uma mulher utilizando ela mesmo como personagem, ou seja, vemos tudo por um ponto de vista de uma mulher nerd, antissocial e muito boca suja. Certas situações inusitadas me causaram momentos de espanto e divertimento, especialmente por ver situações normais para homens que normalmente não vemos mulheres comentando, como, por exemplo um momento onde Julia se questiona se ela devia ir no banheiro dar cagada, para poder ter mais espaço no estômago para tomar um sorvete ou não. Ela tentando chegar em casa antes de cagar na própria calça, em um momento de dor de barriga. Fora isso também temos uma personagem feminina que fala muito, mas muito palavrão, e, Julia sabe muito bem trabalhar com palavrões em seus quadrinhos, eles sempre servem como reforçador do humor sem deixar aquela sensação de que o palavrão que foi a piada. 
      Apesar dele possuir um grande número de palavrões, eles são sempre muito bem colocados, e não estão lá só por estar para alguém ler e ficar rindo só porque a Julia Wertz fala muito palavrão, pelo contrário, estão lá para complementar o humor da cena, mostrando algo que muitos de nós falaria ou agiria caso algo desagradável acontecesse com você.


     Entre umas e outras é claramente um tipo de humor que beira muitas vezes ao as vezes a politicamente incorreto, mas, em alguns momentos, certas falas para mim não caíram muito bem e que eu sinceramente achei um tanto desnecessário. Um exemplo, que por sinal acontece algumas vezes no quadrinho é Julia falar que não precisa fazer tal coisa porque ela é uma americana branca de classe média! Em alguns casos chega a ser ofensivo, como quando ela fala que podia se dar ao luxo de não trabalhar mais em um dos seus empregos porque é branca (e uma dessas ocasiões acontece logo nas primeiras páginas). Então, para ela existem empregos onde pessoas brancas não podem trabalhar? Sério, por mais bobo que isso pode soar para você ou para ela quando escreveu, é, certamente algo que soa sim muito mais ofensivo do que engraçado para outras pessoas que, ou não são brancas ou, até mesmo para as que são brancas e trabalham no mesmo tipo de emprego que Julia Wertz se demite. Não é nada do tipo que estrague a obra, mas, querendo ou não, esse tipo de coisa é um exemplo claro de que ainda existe muito preconceito e até mesmo uma pontinha intolerância racial nos Estados Unidos, sim!
         Sinceramente, esse é um dos pouquíssimos pontos fracos da obra. 


      A publicação dele aqui no Brasil ficou bem fiel a original, fazendo com que eu não possa reclamar dele ter saído no formato de livro, pois ele já é originalmente assim (ao contrário de outros publicados por outras editoras como Clube da Luta 2 ou Usagi Yojimbo). A única diferença chamativa entre ambas pelo que pude notar foi terem trocado a capa americana, como pode ser visto abaixo: 



        Pessoalmente falando achei ambas as capas excelentes, mas, creio que se pudesse escolher uma capa para a versão brasileira escolheria uma terceira opção que é uma capa colorida muito charmosa e chamativa.


       Tenho que dizer que gostei da Adaptação do título para o Português, feito por Eduardo Soares, já que, sinceramente falando não acho "Bebendo no cinema" um título chamativo para um quadrinho no Brasil, mesmo ele tendo algum sentido na história (por algum motivo ela curte ir para o cinema encher a cara) o título entre umas e outras ficou bem mais legal, pois ele dá a entender que esses entre umas e outras faz referência não só as bebidas que ela toma, mas também entre as umas e outras coisas que acontecem na vida, tanto boas quanto ruins. Então para mim, foi uma ótima adaptação de nome para o Brasil.
      Entre umas e outras é um quadrinho muito divertido, ousado e sincero sobre como é ser um adulto por falta de opção, em ter que lidar com responsabilidades, e com escolhas difíceis que você não tinha que lidar quando morava com os pais, como escolher entre o quadrinho que você quer ler ou comprar comida e sobre ter que engolir sapo no decorrer da nossa vida ou até mesmo abaixar a cabeça e aceitar certas situações sem reclamar. Tudo isso com muito bom humor! É impossível não se identificar com as desventuras de Julia Wertz na sua tentativa de ser um adulto.
        Na minha opinião ele foi um dos melhores quadrinhos alternativos que eu li esse ano. Vale muito a pena dar uma conferida no trabalho da Julia Wertz, principalmente se você gosta desse estilo de quadrinhos. Enquanto isso, só me resta aguardar ansioso que a Nemo publique também o Fart Party.

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